Glass skin: o que realmente está por trás da “pele de vidro”?
A expressão glass skin, ou “pele de vidro”, ficou popular nas redes sociais para descrever uma pele muito lisa, uniforme, hidratada e luminosa, com aquele aspecto de viço que parece refletir a luz.
O conceito surgiu associado às rotinas de skincare coreanas e rapidamente se transformou em uma tendência mundial. Junto com ele, apareceram vídeos mostrando dez etapas de cuidados, séruns sobrepostos, máscaras, esfoliantes, aparelhos e uma infinidade de produtos que prometem chegar à tão desejada “pele perfeita”.
Mas será que precisamos de tudo isso?
Na dermatologia, a resposta é bem menos complicada: uma pele bonita não precisa parecer sem poros, sem textura ou sem nenhuma imperfeição. E também não é necessário usar dez produtos diferentes para que ela pareça saudável e luminosa.
Afinal, o que é glass skin?
Glass skin não é um diagnóstico ou um tipo específico de pele.
É uma expressão estética usada para descrever uma pele com algumas características que costumamos associar a uma aparência saudável:
boa hidratação;
textura relativamente uniforme;
luminosidade;
barreira cutânea preservada;
menor evidência de descamação e ressecamento;
tom de pele mais homogêneo.
O problema começa quando esse conceito é confundido com a ideia de uma pele completamente lisa, sem poros, manchas ou qualquer irregularidade.
Pele real tem poros, textura e pequenas variações de cor.
Além disso, iluminação, maquiagem, câmeras e filtros podem fazer uma diferença enorme nas imagens que vemos nas redes sociais. Por isso, tentar reproduzir exatamente uma fotografia ou um vídeo pode criar uma expectativa impossível de alcançar.
Para ter uma pele luminosa, preciso fazer uma rotina de dez passos?
Não.
Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes sobre glass skin.
Uma rotina extensa não é necessariamente melhor do que uma rotina simples. Na verdade, acrescentar vários produtos ao mesmo tempo pode aumentar a chance de ardência, vermelhidão, descamação, acne e irritação da barreira da pele.
Na maior parte das vezes, uma boa rotina começa com poucos pilares.
1. Limpeza gentil
A limpeza deve retirar oleosidade, suor, protetor solar, maquiagem e resíduos sem deixar aquela sensação de pele “repuxando”.
Limpar excessivamente ou utilizar produtos muito agressivos pode comprometer a barreira cutânea e produzir exatamente o contrário do que buscamos: uma pele irritada, ressecada e sem viço.
2. Hidratação adequada ao seu tipo de pele
Uma pele bem hidratada tende a refletir melhor a luz e pode parecer mais viçosa e uniforme.
Isso não significa, porém, que todas as pessoas precisem de hidratantes pesados.
Uma pele oleosa ou acneica também pode precisar de hidratação, mas geralmente se beneficia de formulações adequadas ao seu perfil, como produtos identificados como não comedogênicos.
O objetivo não é deixar uma camada espessa de produto sobre o rosto, mas ajudar a preservar água e manter a barreira da pele funcionando adequadamente.
3. Protetor solar todos os dias
Não existe rotina de skincare voltada à saúde e à uniformidade da pele que faça sentido sem fotoproteção.
A exposição solar acumulada contribui para manchas, alterações de textura e envelhecimento precoce.
Por isso, o protetor solar deve fazer parte da rotina diária. De maneira geral, recomenda-se um produto de amplo espectro e com FPS 30 ou superior, escolhido de acordo com o tipo de pele e a rotina de cada pessoa.
4. Ativos escolhidos para aquilo que a sua pele realmente precisa
É aqui que uma rotina deve deixar de seguir tendências e começar a ser individualizada.
Retinoides, ácidos, antioxidantes e outros ativos podem ser interessantes para acne, pigmentação, textura ou sinais de envelhecimento, por exemplo.
Mas isso não significa que todos devam ser usados juntos.
Misturar diversos ácidos, retinol, esfoliantes e outros produtos porque todos apareceram em uma rotina de glass skin pode causar irritação — e uma pele inflamada dificilmente terá o aspecto saudável que estamos tentando alcançar.
No skincare, mais nem sempre significa melhor.
E a esfoliação?
A esfoliação pode melhorar temporariamente a textura de algumas peles, mas também é um dos pontos em que vejo mais exageros. Principalmente quando falamos sobre esfoliação física.
Esfoliar demais pode causar ardência, vermelhidão, descamação e piora da barreira cutânea. Em pessoas predispostas, a própria inflamação causada pelo excesso de tratamentos pode favorecer manchas.
Por isso, a frequência e o tipo de esfoliação precisam considerar o tipo de pele e os outros produtos utilizados na rotina.
Se você já utiliza retinoides ou outros ativos potencialmente irritantes, adicionar vários esfoliantes pode ser desnecessário.
E procedimentos dermatológicos podem deixar a pele mais luminosa?
Dependendo do que está causando a alteração da pele, procedimentos dermatológicos podem fazer parte do tratamento.
Manchas, cicatrizes de acne, textura irregular, vasos aparentes, sinais de fotoenvelhecimento e outras alterações não são tratadas da mesma maneira.
Peelings, lasers e outras tecnologias podem ser indicados em determinados casos, mas não existe um único “procedimento para glass skin” que seja adequado para todas as pessoas.
A escolha depende do diagnóstico, do fototipo, das características da pele e do objetivo do tratamento.
Então, qual deveria ser o verdadeiro objetivo?
Eu prefiro trocar a busca pela “pele perfeita” pela busca por uma pele saudável, confortável e bem cuidada.
Isso significa uma pele que tolera sua rotina, tem a barreira preservada, recebe proteção solar e tem suas necessidades específicas tratadas de maneira adequada.
Em algumas pessoas, isso significará uma pele naturalmente mais luminosa. Em outras, os poros permanecerão aparentes, algumas sardas continuarão existindo e a textura continuará sendo perceptível — porque isso também é pele normal.
A parte interessante da tendência glass skin é ter colocado hidratação, cuidado com a barreira da pele e fotoproteção em evidência.
A parte que vale deixar de lado é a ideia de que precisamos acumular produtos ou perseguir uma pele sem poros e sem nenhuma imperfeição.
No fim, a rotina mais sofisticada não é necessariamente aquela que tem mais etapas.
É aquela que faz sentido para a sua pele e que você consegue manter com constância.
Dra. Amanda Ivanchuk
Médica Dermatologista
CRM-SP 216.886 | RQE 139.022
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